Planejado para ser uma das principais obras de infraestrutura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, o Terminal Paralímpico Recreio, na zona oeste da cidade, foi construído em apenas cinco meses

O curto prazo exigiu das empresas envolvidas planejamentos cuidadosos e bem detalhados, além de monitoramento de todas as etapas, para que eventuais distorções não influenciassem no prazo de entrega. O terminal foi inaugurado em 9 de julho do ano passado. Conforme explica o arquiteto responsável, Jozé Candido Sampaio de Lacerda Jr., do ZK Arquitetos Associados, o curto prazo para a realização foi de fato o principal desafio enfrentado na concepção deste projeto. “Costuma levar bastante tempo para definirmos o projeto, realizar, aprovar e depois detalhar tudo. Mas, neste caso, foi realmente pouco tempo”, avalia o arquiteto.

A construtora responsável pela obra, a Construcap, também teve de estabelecer um planejamento detalhado para garantir que o projeto fosse entregue a tempo de ser inaugurado cerca de um mês antes do início dos Jogos. “Identificadas as atividades principais que representavam o caminho crítico para o cumprimento do prazo, todas as etapas desde o projeto executivo foram exaustivamente monitoradas por equipes especialmente mobilizadas para realizar o acompanhamento diário do cronograma”, explica Silvano Macatrozzo, gerente de operações da empresa.

A escolha da estrutura metálica, segundo ele, foi fundamental para o cumprimento do prazo, uma vez que as peças já chegavam prontas à obra, cabendo à empresa a montagem das peças. “Essa solução foi fundamental devido à agilidade na montagem, eliminação de cimbramentos e possibilidade de atividades simultâneas”, afirma Macatrozzo.

O arquiteto Jozé Candido também ressalta como grande vantagem do material metálico a rapidez na execução, mas afirma que, se há ganho de velocidade durante a obra, há perdas durante o projeto. Isso porque a estrutura metálica exige muito mais detalhamento na elaboração do projeto. “É necessário sempre uma precisão muito grande. É como se fosse um brinquedo de montar, que precisa estar com todas as peças certinhas”, ressalta.

No caso do projeto do Terminal Recreio, essa estrutura metálica é que dá sustentação, por exemplo, à cobertura, principal elemento responsável pela identidade do projeto. A solução para a cobertura foi baseada em um conjunto de superfícies triangulares com caimentos próprios, que dá corpo e identidade à edificação. Em sua altura mais baixa, a cobertura fica a 3,90 m da superfície da base, e em sua altura mais extensa chega a 4,90 m. Quando vista de cima, é como se fosse formada por quadriláteros dispostos de maneira a criar um efeito de onda.

A complexidade da estrutura da cobertura exigiu um projeto executivo detalhado e específico

Para a montagem das peças, foi elaborado um projeto executivo específico para o telhado, do qual constaram todos os detalhes sobre o tamanho de cada peça, o que gerou um plano de corte que agilizou a montagem da cobertura assim que os materiais chegavam à obra. A telha utilizada foi de chapa metálica trapezoidal com isolamento termoacústico “tipo sanduíche” de EPS, capaz de amenizar o calor.

Para garantir o conforto térmico, Jozé Candido explica que “foi feita uma abertura bem grande, capaz de garantir a circulação de ar”. No entanto, também houve a preocupação  e esticar a área da cobertura até o local onde o usuário entra nos veículos. “É por isso que a cobertura se prolonga sempre além da plataforma: para o passageiro poder estar no coberto em caso de chuvas”, explica.

A estrutura metálica de sustentação da cobertura foi feita de vigas de aço apoiadas em 26 pilares metálicos tubulares, em formato de V. Essa estrutura que compõe a cobertura   os pilares de sustentação foi erguida sobre uma base de concreto, com altura de 95 cm. Essa, aliás, é a grande diferença do sistema BRT para o ônibus comum. Pois, no caso do BRT, o embarque do passageiro é feito no mesmo nível do veículo, evitando que o usuário tenha de subir ou descer degraus. “Isso agiliza muito o embarque e desembarque dos passageiros”, ressalta o arquiteto.

O acabamento também foi otimizado com o objetivo de garantir o cumprimento do prazo. A estrutura metálica foi entregue na obra já pintada juntamente com um plano de montagem de estrutura parafusada, minimizando a necessidade de retoques de pintura na obra. Para o piso do terminal foi empregado piso de alta resistência moldado in loco.

Conforme lembra Silvano Macatrozzo, gerente de operações da Construcap, no início da obra, ainda houve o desafio de lidar com o solo de baixa compressão, comum na região devido à grande presença de água (vale lembrar que o terminal está a 1,35 km da praia). “Foram necessários diversos métodos de tratamento de solo para começar a construção em si”, explica.

A fundação do terminal foi feita de maneira direta, com sapatas de concreto armado. “Depois da fundação, eles colocam o pilar em cima e então foi marcada a cobertura”, conta Jozé Candido. Nessa base de concreto, já foram deixadas todas as esperas para auxiliar na instalação dos pilares metálicos tubulares.

Outro detalhe do sistema BRT que precisou ser levado em conta no projeto é que, por ter sido projetado para o sistema BRT, os corredores tiveram de ser pensados para dar fluidez a veículos articulados (de 18 m) e biarticulados (de 28 m). Por isso, foram construídas duas rótulas em níveis diferentes, que estabelecem o acesso aos dois corredores do terminal: um para ônibus do sistema BRT e outro para as linhas alimentadoras, que são um complemento do eixo do BRT realizado por ônibus comuns.

Enquanto os ônibus do sistema BRT adentram diretamente na plataforma principal do terminal, os ônibus comuns das chamadas linhas alimentadoras fazem o desembarque dos passageiros do lado direito, em uma plataforma para os ônibus comuns, que possui cinco de pontos de parada, construídos da mesma maneira, mas que não são interligados. A cobertura de cada um dos pontos tem o mesmo estilo, com superfícies triangulares e apoio de vigas de aço (no caso, quatro vigas por ponto de parada).

Os usuários que desembarcaram nesse terminal lateral, então, podem adentrar a plataforma de BRTs através de uma passagem subterrânea, que permite o acesso à bilheteria. Trata-se na verdade de um túnel que foi executado em concreto armado, com profundidade de 2,55 m.

Conforme destaca Jozé Candido, o arquiteto responsável, o passageiro pode optar por entrar na passagem subterrânea através de uma escada ou então pela rampa, uma vez que o terminal foi todo construído com foco em acessibilidade. “Há toda a marcação necessária e todo o respeito referente à legislação de acessibilidade”, comenta.

No quesito sustentabilidade, o Terminal Paralímpico Recreio chama atenção principalmente por seu sistema de captação e reúso de água pluvial. “Toda a água de chuva é captada na própria cobertura, passa pelos filtros [dentro dos pilares metálicos] e vai para uma determinada caixa d””””água”, afirma o arquiteto Jozé Candido. Dali em diante, a água é encaminhada dos tanques reservatórios para a adequada distribuição, que pode ser desde o uso nos banheiros ou para regar os jardins.

A preocupação com a redução de consumo de energia também está no projeto de iluminação, que foi desenvolvido com a aplicação de lâmpadas de LED. Segundo o arquiteto, essa foi uma solução adotada primeiramente na reforma do Terminal Alvorada, em 2011, e devido ao sucesso de redução do consumo foi replicada no projeto do Terminal Recreio.

Localizado na interseção das avenidas das América e Salvador Allende, o Terminal Paralímpico Recreio é o ponto de chegada da Transolímpica, a primeira via expressa do Rio com corredor exclusivo BRT, onde passam 70 mil passageiros por dia. A via interliga ao todo nove bairros: Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Camorim, Curicica, Taquara, Jardim Sulacap, Magalhães Bastos, Vila Militar e Deodoro. O caminho serve como alternativa à Linha Amarela para quem vive na Baixada Fluminense e nas regiões próximas à Avenida Brasil.

A plataforma do terminal também comporta ônibus da Transoeste, que foi o primeiro corredor em operação da cidade, inaugurado em 2012. O trajeto liga a Barra da Tijuca a Santa Cruz e Campo Grande. O sistema transporta, todos os dia, cerca de 216 mil passageiros.

Obra: Terminal Paralímpico Recreio
Localização: Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto: 2016
Conclusão da obra: 2016
Área do terreno: 25.000 m²
Área construída: 1.800 m²
Arquitetura: ZK Arquitetos Associados
Construção: Construcap
Iluminação: Luminarama
Paisagismo: ZK Arquitetos Associados
Instalações hidráulicas e elétricas: EngeProj Engenharia
Cobertura: ArcelorMittal
Vidros: Guardian
Revestimentos cerâmicos: Gail
Louças e metais: Deca
Porcelanato: Portobello
Portas especiais: Wolpac
Tinta: Akzo Nobel
Piso drenante: Braston
Forros: Hunter Douglas
Piso: Mozaik
Blocos de concreto: Multibloco
Piso: Tecnogran

Por Diceu Neto