O que avaliar na hora de escolher entre comprar ou locar fôrmas e escoramentos

Diante da desaceleração contínua no setor da construção, a menor quantidade de projetos acabou estimulando uma forte concorrência no segmento de fôrmas e escoramentos. A diversidade desses sistemas construtivos ainda é grande e inovações não faltam, mas ainda cabe às construtoras decidirem pela modalidade de contratação e os sistemas mais adequados nesse cenário.

Fatores como velocidade de execução, tipologia estrutural, número de reutilizações, sistemas de fôrmas e escoramentos e verba disponível são determinantes e devem ser considerados na hora de tomar essa decisão.

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Locação é a prática mais comum do mercado. Devolução deve ser feita com nota fiscal de transferência

Com boas margens de negociação, a aquisição de equipamentos, sobretudo os usados, pode ser uma opção atraente para as empresas que trabalham com um portfólio de obras com estruturas repetitivas e ritmo lento de execução. No entanto, além de estar capitalizada para investir na compra dos equipamentos, a construtora também deverá se responsabilizar pelos custos de armazenagem, manutenção e revisão das peças.

“Independentemente da conjuntura, a opção pela compra implica custos adicionais com armazenamento, manutenção e segurança. Portanto, além de fazer contas, é imprescindível ter continuidade de obras para apostar nessa modalidade de aquisição”, alerta o projetista de fôrmas Nilton Nazar, diretor da Hold Engenharia.

Já a opção pela locação – prática mais comum, sobretudo no mercado imobiliário – segue sendo particularmente recomendada em projetos de curto prazo, com muitas alterações de tipologia ou ainda em estruturas com variações de altura do pé-direito.

“O desembolso com aluguel é feito mensalmente e, como houve queda de preços na locação em função da maior disponibilidade de equipamentos, essa é a melhor opção de contratação, se não houver sequência de obras”, explica Osvaldo Comenale Gamboa, diretor técnico da Associação Brasileira de Fôrmas, Escoramentos e Acessos (Abrasfe).

Menos improvisos
Seja qual for a modalidade de contratação, o ideal é contar com o apoio de projetistas de fôrmas e escoramentos ainda na fase da concepção do empreendimento para orientar a escolha do sistema a ser utilizado.

Dessa forma, é possível adequar a solução à metodologia estrutural que será utilizada na obra, levando em conta a modulação de vãos e a execução de pilares e vigas com seções repetitivas ou não entre os pavimentos. Quanto mais plana for a estrutura e menor for o número de vigas, mais fácil será sua execução e, portanto, maiores as chances de uso de sistemas industrializados e não artesanais.

Vale observar que as empresas fornecedoras de equipamentos possuem modulções de fôrmas para pilares, paredes e lajes com opções variadas – tanto para altura como largura das peças. “Caso esses dados sejam considerados no projeto, é possível evitar ajustes de madeira indesejáveis no canteiro, eliminando gambiarras e aumentando a produtividade dos equipamentos em obra”, observa Gamboa.

Prazo, sequência de execução e os números de reaproveitamentos também são informações que devem ser observadas para garantir a escolha do sistema ideal. “O prazo de execução tem grande influência na escolha do sistema de fôrmas. No caso de conjuntos habitacionais mais populares, por exemplo, as fôrmas metálicas têm sido muito utilizadas, garantindo grande produtividade e considerável redução nos prazos de execução”, completa Nazar.

Todos os projetos e execução devem ser norteados pela NBR 15.696:09 – Fôrmas e Escoramentos para Estruturas de Concreto. Como suportes adicionais, podem ser utilizadas outras normas – como a americana ACI, a alemã – DIN e a europeia EM – para referenciar a execução.

Contratação e recebimento
Além do custo do sistema, detalhes como produtividade, segurança, logística, orientação e treinamento para montagem e capacidade de atendimento e suporte técnico para projetos devem ser considerados no momento de definir o fornecedor.

“Os equipamentos e sistemas possuem características diferentes de qualidade, segurança, modulação e produtividade, por exemplo. O real benefício estará na economia de mão de obra, rapidez e na qualidade de execução da estrutura oferecida, o que evitará custos adicionais para as construtoras”, ressalta Gamboa.

Na hora do recebimento do sistema de fôrmas e escoramentos, o representante da construtora deve conferir o material, preferencialmente no próprio local do fornecimento, verificando as condições das peças no que tange a amassamentos, oxidação, pintura e, principalmente, quanto às especificações do projeto.

No canteiro, todas as peças devem ser armazenadas em compartimentos adequados, particularmente os menores itens (como porcas, tensores e barras de ancoragem), que são mais suscetíveis a perdas. Também é importante garantir que as desenformas sejam executadas de modo correto, evitando a danificação das peças. A devolução tem de ser feita com nota fiscal de transferência, conferida pelo representante da construtora no próprio depósito do fornecedor.

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Aquisição de fôrmas e escoramentos é alternativa em obra com cronogramas estendidos

Inconvenientes adicionais
Um dos maiores pontos de conflito entre fornecedores e construtoras é o custo das indenizações a serem pagas em casos de perdas e avarias de peças de escoramentos. A recomendação para evitar futuros problemas é acordar, antes da assinatura do contrato, o custo da reposição das peças danificadas. “É preciso definir com clareza os valores que serão cobrados e o processo de conferência das quantidades também deve ser bem transparente”, observa Michael Rock, diretor de desenvolvimento da SH.

Além de contratos bem elaborados, o envolvimento da engenharia da obra no controle e gerenciamento dos equipamentos locados é um detalhe importante para minimizar problemas. “A preocupação do empreiteiro de mão de obra é produzir. O cuidado com o uso e com o controle dos materiais na retirada e na devolução acaba ficando em segundo plano”, conta Gamboa.

Na construtora Trisul, problemas de custos adicionais com indenizações têm sido contornados com treinamento para os funcionários que recebem, usam e devolvem o material. “O treinamento é aplicado para as equipes de execução de estrutura. A fiscalização no canteiro é feita na etapa de montagem das fôrmas e durante o uso dos equipamentos”, explica Roberto Pastor, diretor técnico da empresa.

Vale observar que o acúmulo de equipamentos ociosos por longos períodos também gera custos adicionais. De acordo com fornecedores, a ociosidade em canteiro pode variar entre 10% e 30%, dependendo do estágio da obra e do controle. Equipamentos ou as partes que compõem um sistema, quando não utilizados, também ficam sujeitos a usos indevidos e perdas, gerando custos de locações adicionais e indenizações inesperadas.

Inovações tecnológicas
Mesmo com a desaceleração do setor, tecnologias inovadoras como as mesas voadoras e o sistema deck (com painéis com cabeçais descendentes, os chamados drop-head), por exemplo, ainda são opções interessantes ofertadas pelos fabricantes para o mercado de construção imobiliária.

O investimento inicial é mais alto, mas pode ser compensado pela alta produtividade conferida por esses equipamentos no canteiro. Além da redução de mão de obra, a contratação dessas soluções precisa considerar custos adicionais com gruas, por exemplo, e trabalhadores qualificados e treinados para operá-las.

Segundo especialistas, apesar dos benefícios dessas tecnologias, ainda há uma grande resistência em adotar esses sistemas. “Os construtores, em geral, querem inovação, mas mostram resistência em adotá-las. No segmento predial, por exemplo, a utilização de mesas voadoras exige mudança no partido estrutural de concreto, cujo projeto deve prever pavimentos com poucas vigas, pilares alinhados e lajes planas. E preferencialmente sem vigas de borda”, observa Nazar.

Por Gisele Cichinelli