Canalização dos córregos Água Preta e Sumaré devem diminuir transtornos causados pelas chuvas na Zona Oeste de São Paulo

Reconhecida pela existência de muitas ruas com declive acentuado, favorecendo o acúmulo da água das chuvas nos pontos mais baixos do bairro, a região entre Perdizes e Pompeia, na zona Oeste da capital paulista, ganhará um reforço para sanar o problema com a construção de novas galerias de canalização dos córregos Água Preta e Sumaré. A ideia geral do projeto é prover dois grandes pontos de captação nas áreas de maior concentração – para o Água Preta, a confluência da Av. Pompeia com a Av. Francisco Matarazzo e a R. Palestra Itália e, para o Sumaré, a Praça Marrey Júnior -, levando a água para desembocar na Marginal do Rio Tietê.

FOTOS: DIVULGAÇÃO SPOBRAS

“É muito difícil afirmar que as enchentes na região vão terminar, mas certamente os problemas serão bastante minimizados”, acredita Osvaldo Misso, secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (Siurb).

Aguardada pela população local há mais de 20 anos, a obra da prefeitura para aumentar a vazão dos córregos foi iniciada em julho de 2013 e deve ser entregue no final de setembro. O custo final da operação é estimado em aproximadamente R$ 200 milhões.

Para Misso, a intervenção – mesmo ainda incompleta na ocasião – já deu boa resposta no último período de chuvas mais intensas. De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da capital, o acumulado de chuva na região da Subprefeitura da Lapa – onde estão os dois córregos – chegou a 1.306,9 mm entre novembro de 2015 e abril de 2016, o maior índice entre os seis anos considerados no levantamento. O número de ocorrências de alagamentos na região dos córregos Água Preta e Sumaré, entretanto, foi de apenas três, contra 16 no período anterior e 20 entre 2012 e 2013. “A obra já mostrou funcionalidade no último verão”, aponta Misso, ressaltando que no caso do Água Preta a capacidade de vazão foi mais do que duplicada.

As antigas galerias de canalização possuíam a dimensão de 2,70 m x 1,80 m. Elas foram conservadas e permanecem em utilização, ao lado das novas. No Água Preta, que vem da região do bairro de Vila Pompeia, são 3.300 m de comprimento. Com a construção de 1.370 m de novas galerias, a capacidade de vazão será estendida dos atuais 13 m3/s para 31 m3/s.

FICHA TÉCNICA
Obra: Drenagem dos córregos Água Preta e Sumaré (São Paulo)
Características: 1.370 m de novas galerias pluviais para aumento da capacidade de vazão para 31 m³/s
Total construído: 3.395 m
Localização: Av. Pompeia com Av. Francisco Matarazzo e R. Palestra Itália (Água Preta) e Praça Marrey Júnior (Sumaré)
Construtora: Engeform e Passareli, com recursos da Prefeitura de São Paulo via Operação Urbana Consorciada Água Branca
Início da obra: julho de 2013
Conclusão: setembro de 2016
Custo final estimado: R$ 200 milhões

No Sumaré, que corre pela avenida de mesmo nome, são 3.700 m de extensão. Foram construídos 2.025 m de galerias, ampliando a vazão de 24 m3/s para 31 m3/s. As novas galerias têm 3,50 m x 3 m e, nas travessias, anéis circulares de 3,60 m de diâmetro.

O secretário-adjunto explica que a obra contratada inicialmente previa processos mais destrutivos. Revisões posteriores indicaram que não havia necessidade de fazê-la nesse modelo, e a opção foi por um sistema misto entre vala a céu aberto (VCA) e túneis, com a utilização de técnicas não destrutivas. No Água Preta, há uma passagem sob a Av. Francisco Matarazzo e também sob a linha férrea da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), no trecho entre as estações Palmeiras- Barra Funda e Água Branca.

As novas galerias para o córrego Sumaré se iniciam na Praça Marrey Júnior, seguem no sentido da R. Padre Antônio Tomás (contornando o Allianz Parque, erguido a partir do antigo estádio Palestra Itália, do Palmeiras) e atravessam a Av. Francisco Matarazzo. Os dois ramais se juntam após a passagem sob a linha férrea, na R. Gustav Willi Borghof, e a rede segue a céu aberto até novo túnel sob a Av. Marquês de São Vicente para desembocar na Marginal do Rio Tietê.

Em dois pontos o traçado das novas galerias do Água Preta encontrou redes coletoras de esgoto. No primeiro, foi necessário fazer um remanejamento do coletor, com a utilização de tubo cravado de 1,20 m de diâmetro. No local, nas imediações de uma unidade da rede Kalunga, houve a desapropriação de uma área, único caso em toda a obra.

No segundo ponto, para a construção do túnel sob a Av. Marquês de São Vicente, próximo à Praça José Vieira de Carvalho Mesquita, optou-se pelo sistema de sifão. De acordo com Osvaldo Misso, o coletor de esgoto existente ali pertence a uma rede antiga, que utiliza manilhas encaixadas. “Qualquer tipo de mexida no local poderia trazer um transtorno grande para a rede”, diz o secretário-adjunto, justificando a escolha. O trabalho para instalação do sifão naquele ponto foi feito de forma bastante lenta e gradual para evitar problemas.

Reprodução
Água pluvial dos córregos Água Preta e Sumaré será canalizada para desembocar na Marginal do Rio Tietê

De acordo com Misso, ainda haverá novas captações tanto no Sumaré quanto no Água Preta. Neste, uma das instalações ficará na confluência das ruas Barão do Bananal e Venâncio Aires. Essa esquina, por sinal, é um dos pontos críticos dos alagamentos na região, a ponto de propiciar a formação de verdadeiros redemoinhos quando ocorrem chuvas mais intensas. Os moradores de muitas casas por ali já instalaram degraus extras e portões com a aparência (e a função) de comportas para bloquear o avanço indesejado da água.

Essa obra ficará a cargo da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), porque está prevista a construção da estação Sesc Pompeia da futura Linha 6 – Laranja no local. Segundo a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, durante a implantação do metrô, as águas pluviais do canteiro de obras da Estação Sesc Pompeia serão captadas e encaminhadas às galeriais existentes. As obras se estenderão até 2021.

Travessia desafiadora
Um dos desafios do projeto foi a construção dos novos túneis sob a linha férrea da CPTM, cujas operações, especialmente no transporte de passageiros, não poderiam ser paralisadas. Embora Misso ressalte que as negociações entre a prefeitura e a empresa estadual tenham sido complexas e demandado bastante tempo, foram alcançados os entendimentos para a viabilização técnica do trabalho.

Na travessia da rede ferroviária, tanto para o ramal do Água Preta quanto para o do Sumaré, empregou-se o sistema de tunnel liner, considerado não destrutivo. A técnica é utilizada para a abertura de túneis estruturados com segmentos de aço corrugado e indicada para a realização de obras subterrâneas em diversos tipos de solo, especialmente em áreas urbanas. O processo é feito com a escavação modular do solo, numa dimensão apropriada para permitir a instalação das chapas de aço, que são conectadas entre si. À medida que se avança, são instaladas as chapas metálicas, que cumprem a função de revestimento e contenção. A cada segmento montado de túnel, é possível a escavação do anel seguinte. Concluída a montagem dos anéis, é feito o revestimento em concreto.

Outra tecnologia utilizada nas travessias, especialmente sob as vias de tráfego, foi o Novo Método Austríaco para Abertura de Túneis (NATM, na sigla em inglês). Nesse caso, a estrutura de suporte é instalada logo após a escavação parcial do maciço. A estrutura é feita com concreto projetado e, quando necessário, complementada por cambotas metálicas, chumbadores e fibras no concreto. Uma de suas vantagens é a adaptabilidade da seção de escavação, que pode ser modificada em qualquer ponto, de acordo com as necessidades geométricas e de parcialização da escavação.

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Os dois córregos se juntam após a passagem sob a linha férrea e a rede segue a céu aberto até novo túnel sob a Av. Marquês de São Vicente (foto) para desembocar na Marginal do Rio Tietê

“O tunnel liner é indicado para qualquer tipo de solo. Já o NATM precisa de condições melhores e não pode ser utilizado em todos os locais”, diz Misso. No desemboque para o Rio Tietê, sob a Marginal, houve a utilização de enfilagens para garantir a estrutura após o uso do NATM. A enfilagem tubular injetada é um método de injeção de calda de cimento por meio de tubos em maciços, utilizado para aumentar a estabilidade em solos de baixa resistência em zonas de escavação.

Em vários pontos da obra houve a necessidade de fazer a recomposição do solo, porque foram encontrados resíduos classe II, considerados não perigosos de acordo com a Norma NBR 10.004 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Nesses casos, o material foi retirado e levado para aterros especiais, fazendo-se a recomposição do local. Vale lembrar que algumas das áreas abrangidas pela obra já sediaram indústrias em outras épocas, o que provavelmente está na origem dos problemas detectados.

De acordo com o secretário-adjunto, mesmo que as obras tenham sido realizadas em locais de tráfego intenso, a escolha por métodos não destrutivos permitiu minimizar os impactos no trânsito. A Av. Francisco Matarazzo, por exemplo, registrava em 2015 um volume médio de 2.354 veículos por hora no sentido bairro-centro, conforme números da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo.

Inevitavelmente, porém, houve reflexos. Eles foram sentidos, por exemplo, na maior lentidão do trânsito no cruzamento da Matarazzo com a Av. Pompeia, quando uma das pistas desta última foi interditada para outra intervenção do projeto – a implantação de grelhas e canaletas para compor um sistema de microdrenagem. O conjunto é formado por quatro novas galerias que funcionam como ramais e atravessam a Av. Pompeia entre a Praça Raízes da Pompeia e o Shopping Bourbon. Os quatro ramais, que têm 1,60 m de largura, estão ligados a uma galeria de 2,60 m x por 2 m que direcionam a água coletada à nova galeria do Água Preta. As grelhas de ferro fundido aguentam o impacto de veículos pesados de até 40 t. O sistema de microdrenagem foi instalado também na Praça Marrey Junior, no ramal do córrego Sumaré.

Operação Água Branca
As obras de ampliação da capacidade de escoamento das galerias dos córregos Sumaré e Água Preta integram a Operação Urbana Consorciada Água Branca, coordenada pela prefeitura com a participação de proprietários, moradores, usuários e investidores. A operação visa implementar transformações urbanísticas, sociais e ambientais na região, que inclui bairros como Água Branca, Perdizes e Barra Funda e possui uma boa infraestrutura de transportes, próxima das rodovias Castelo Branco, Anhanguera, Bandeirantes e do Terminal Palmeiras-Barra Funda (no qual operam metrô, CPTM e ônibus).

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Na Av. Pompeia foram instaladas grelhas e canaletas para compor um sistema de microdrenagem

Um dos objetivos da operação urbana é justamente melhorar os sistemas de macro e microdrenagem para diminuir os problemas de inundação ocasionados pela deficiência das redes e galerias. Outros alvos incluem implantar um conjunto de melhorias para ligações de longo percurso e a reestruturação do viário local, hoje fragmentado; adequar a infraestrutura para dar suporte ao adensamento populacional; aumentar a quantidade de áreas verdes e de equipamentos públicos; produzir unidades habitacionais de interesse social e promover a regularização fundiária na região.

O acelerado aumento no número de moradores nos últimos anos é visível nas muitas torres de apartamentos que vêm sendo erguidas, por exemplo, nos bairros de Perdizes, Vila Pompeia e Vila Romana, substituindo o perfil anterior de casas térreas ou instalações industriais que por vezes ocupavam quarteirões inteiros.

Além disso, surgiram novos empreendimentos, como o Shopping Center Bourbon e a Allianz Parque, que atrai não apenas jogos, mas também shows e outros eventos que geram tráfego e grande afluência de público. Por sinal, exatamente o trecho da R. Turiassu que dá acesso à entrada principal do estádio – recentemente rebatizada como R. Palestra Itália – sempre esteve entre os mais castigados pelos alagamentos. As próximas temporadas de chuvas vão demonstrar se o investimento alcançará o objetivo de reduzir a ocorrência desses problemas.

Por Paulo Hebmüller