Uso de tubos de PEAD avança no subsolo das cidades brasileiras

Quase sempre atrelado a um programa de redução de perdas nos sistemas de esgotamento sanitário e drenagem pluvial das cidades, a utilização de tubos de Polietileno de Alta Densidade (PEAD) em substituição ao concreto começa a ser mais frequente no Brasil. “Estes tubos já existem no País há mais de 30 anos, mas seu uso se expandiu neste século, após a decisão da Companhia de Saneamento de São Paulo (Sabesp) de adotá-lo”, afirma Hélio Rosas, diretor da Sanit Engenharia, especializada em obras de saneamento.

Os tubos em PEAD têm parede dupla. Por dentro, ela é sempre muito lisa, o que lhe confere um teor de condutividade hidráulica superior. “As características hidráulicas são excelentes. A superfície interna garante um coeficiente de atrito extremamente baixo”, diz Rosas. Por fora, podem ser lisos ou corrugados, sendo que o exterior corrugado intensifica sua resistência mecânica e a força estrutural do tubo. Segundo o diretor da Sanit, o tubo liso é usado em redes pressurizadas quando há, por exemplo, uma estação elevatória e o corrugado, que é mais barato, é aplicado nos pontos despressurizados.

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Os tubos PEAD mantêm a mesma vazão ao longo do tempo e a expectativa de vida útil do produto supera os 50 anos

“Os tubos PEAD permitem índices de vazão superiores a 5 m/s”, afirma o engenheiro Plínio Thomaz, diretor presidente da Agência Reguladora dos Serviços Públicos de Saneamento Básico em Guarulhos (SP). Segundo ele, isso economiza na profundidade da vala a ser escavada, uma vez que não necessita de declividade tão acentuada para garantir a velocidade ideal de escoamento dos fluidos. A resistência à compressão é outra vantagem da vala menor, pois sua compactação é mais simples, não requer escoramentos e nem que operários entrem nela para trabalhar. O resultado é maior durabilidade e resistência mecânica ao tubo instalado.

O baixíssimo coeficiente de rugosidade do PEAD também permite baixar o diâmetro da rede coletora de esgoto. Proporcionalmente, a largura da vala cai, minimizando a necessidade de “bota-fora”, acelerando os serviços e reduzindo os impactos ambientais e na vizinhança. A largura varia conforme a qualidade do solo, os materiais de preenchimento (areia, pedra, terra), os níveis de compactação e as cargas estimadas. Para tubos de 100 mm, por exemplo, recomenda-se uma vala de 520 mm de largura mínima.

Vale lembrar que, em maio, duas referências normativas entraram em vigor: a Sabesp atualizou a NTS 048 – Tubo de Polietileno Para Ramais Prediais de Água e a ABNT publicou a NBR ISO 21.138-1: Sistemas de Tubulações Plásticas Para Drenagem e Esgoto Subterrâneos Não Pressurizados, que especifica os materiais e critérios de desempenho de sistemas de tubos flexíveis como o polietileno liso ou corrugado. Deve-se observar ainda a NBR 15.561:2016 – Tubulação de Polietileno PE 80 e PE 100 Para Transporte de Água e Esgoto Sob Pressão – Requisitos.

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Mais caro que o corrugado, o tubo PEAD liso é usado em redes pressurizadas quando há, por exemplo, uma estação elevatória

Inerte e estanque
O polietileno é considerado ideal por ser um material inerte em contato com a grande maioria dos solventes orgânicos e inorgânicos e a Associação Brasileira de Tubos Poliolefínicos e Sistemas (ABPE) mantém um Programa de Monitoramento da Qualidade dos produtos fabricados por seus associados.

Entre as características monitoradas está a resistência à abrasão. O índice de perda de material do PEAD por desgaste por fricção é de 15% a 25% em comparação ao tubo de concreto armado. “Os tubos PEAD não corroem, não enferrujam e nem incrustam resíduos”, afirma Eduardo Rocco, secretário- executivo da ABPE. Ele explica que, quando há incrustações ao longo do tubo, o diâmetro interno diminui, reduzindo a capacidade de escoamento. “Os tubos PEAD mantêm a mesma vazão ao longo dos anos”, garante Rocco. A expectativa de vida útil do produto supera os 50 anos.

O produto também mostra facilidade de manuseio. É leve, fácil de transportar e estocar e, ao contrário das peças concretadas, suporta bem o manejo e pode ser descarregada à mão (tubos de até 450 mm) ou por equipamento (diâmetros superiores) com a ajuda de cintas de náilon.

O sistema reduz a quantidade de pontos de vazamentos, devido ao baixo uso de conexões – as juntas das barras/bobinas são realizadas por solda de termofusão, o que garante 100% de estanqueidade, e criam uma peça única, homogênea e monolítica.

O tubo de PEAD também tem melhor custo-benefício. Segundo Thomaz, o PEAD ganha na velocidade de instalação e na redução das equipes. “Unitariamente, são mais caros que os de concreto armado para águas pluviais. Porém, no custo geral da obra, são cerca de 15% mais baratos”, afirma.

A variedade de tamanhos é grande. Os tubos PEAD podem ir de 20 mm até 1.600 mm de diâmetro e são fornecidos em bobinas de 100 m (para tubos de até 110 mm de diâmetro) ou em barras de 6 m, 12 m ou 18 m. “O mais utilizado é o fornecido em barras de 12 m que, uma vez soldadas por termofusão, ficam totalmente estanques. Para fazer a junção, o sistema adota uma luva com espiral metálica que dificilmente apresentará vazamento”, aponta Rosas. A barra de 12 m também economiza na abertura e no fechamento de valas.

O tubo PEAD faz conexões com qualquer outro material, desde que se utilizem equipamentos e profissionais habilitados capazes de soldar corretamente essas junções. Sobretudo nas cidades, o PEAD é aplicado em substituição a uma rede existente pelo Método Não Destrutivo (MND), no qual um equipamento fura a vala e já é instalado o tubo novo, o que garante menor incômodo à população e um serviço muito mais rápido.

Resultados
Devido à elevada resistência à abrasão, corrosão e intempéries, maior comprimento do tubo, menor quantidade de juntas e de casos de infiltrações, os especialistas são unânimes em apontar a maior durabilidade do PEAD como um ponto-chave a favor do material.

Adicionalmente, a aplicabilidade do PEAD nas cidades também ganha pontos. Ele não requer caminhão munck ou guindaste para ser instalado, mas uma instalação malfeita é o ponto frágil da alternativa. Por isso, as empresas fornecedoras costumam treinar projetistas e instaladores e acompanhar as obras. Assim, elas dão subsídios aos técnicos do canteiro para uma boa execução, fundamental para evitar problemas futuros de deformações e infiltrações ou vazamentos. “Os tubos de PEAD são ótimos, mas exigem certa tecnologia para o assentamento. Deverá ter uma envoltória com areia grossa ou pó de pedra ou material similar. Em Guarulhos, onde fizemos testes, foram usados materiais reciclados na envoltória, sem custos para a prefeitura”, conta Plínio Thomaz.

Mesmo precisando de uma mão de obra mais qualificada, a redução no número de trabalhadores é evidente: a movimentação horizontal dos tubos no canteiro requer de dois a quatro funcionários apenas, e ficam dispensadas as equipes de pedreiros, típicas dos serviços com tubos de concreto. “Para comparar, em um quarteirão de 100 m, fizemos serviços de instalação de tubos de PVC de um lado e de PEAD do outro. Com tubos de apenas 6 m, o primeiro levou três dias para ser concluído. No segundo, a disponibilidade de barras de 12 m fez com que o serviço terminasse em 24 horas. “Além de mais longo, o tubo tinha a facilidade do sistema de encaixe por luvas, muito mais rápido e menos trabalhoso”, conta Rosas.

“Os fabricantes de tubos de concreto que se cuidem. Em alguns anos, todo o mercado das obras de microdrenagem será tomado pelos tubos de PEAD”, vislumbra Thomaz. Por isso mesmo, os especialistas afirmam que é fundamental formar parceiros fornecedores confiáveis e homologados pelas concessionárias, treinar as equipes e dar a elas um padrão de execução de ligações e extensões.

Por Nathalia Barboza