Saiba mais sobre os materiais que podem ser usados na recuperação de pontes e viadutos

A adequada inspeção das obras de arte para a identificação das patologias é o primeiro passo para a escolha dos materiais e das técnicas empregadas na recuperação das estruturas de concreto. Duas normas técnicas orientam o construtor nesse sentido: a NBR 16.230:2013 – Inspeção de Estruturas de Concreto – Qualificação e Certificação de Pessoal – Requisitos, com uma série de ensaios para avaliação, e a norma NBR 9.452:2016 – Inspeção de pontes, viadutos e passarelas de concreto, reunindo os tipos de inspeção (inicial, rotineira, especial e extraordinária).

A pesquisadora Adriana de Araújo, do Laboratório de Corrosão e Proteção do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), explica que, se são visualizadas manchas e fissuras de corrosão na obra de arte, é importante averiguar a extensão do problema, sendo recomendada a realização do ensaio de potencial de corrosão, bem como o exame visual de trechos recémexpostos da armadura. “No caso de edificações expostas a ambientes agressivos e/ou com problemas de corrosão das armaduras, é sempre recomendado que a inspeção contemple a realização de ensaios não destrutivos, incluindo ensaios eletroquímicos, além da usual inspeção visual dos elementos e outras partes constituintes das estruturas, como juntas, aparelho de apoio, revestimento das fachadas, sistema de drenagem de água pluvial etc.”, diz.

DANIEL BENEVENTI

O produto estrutural manufaturado mais utilizado na recuperação das pontes e dos viadutos é o concreto de cimento Portland, de acordo com o Manual de Recuperação de Pontes e Viadutos Rodoviários do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). O material tem baixo custo e longa vida útil quando convenientemente empregado. “A resistência do concreto, definida como sua capacidade de resistir à tensão sem ruptura e sem o aparecimento de fissuras importantes, é a propriedade considerada mais relevante pelos engenheiros estruturais e pelo controle de qualidade. Dois são os fatores principais mais importantes na resistência do concreto: a relação água/cimento e a porosidade”, diz o Manual, lançado pelo DNIT em 2010.

As argamassas especiais (grautes) e microconcretos industrializados são usualmente recomendados e aplicados na recomposição de elementos de concreto, sendo usados em sistemas que oferecem proteção por barreira e eletroquímica, com elevada alcalinidade e ausência de agentes agressivos em sua composição. Eles atuam como uma barreira contra a penetração de oxigênio, umidade, cloretos ou gás carbônico e ainda podem atuar como inibidores de corrosão, explica Adriana.

Veja a seguir características de concretos e argamassas usados na recuperação de pontes e viadutos:

1 Argamassa e concreto de cimento Portland
São os mais usados para recuperação e apresentam em sua composição um variável uso de aditivos que os caracterizam como autoadensáveis, com retração compensada, baixa exsudação e baixa relação água/ cimento. Entre o concreto convencional e os mais tecnológicos, como os fluidos e autoadensáveis, a grande diferença está na consistência e na facilidade de sua aplicação. “Os produtos mais modernos promovem maior velocidade de aplicação e homogeneidade”, ressalta o químico Fernando Holanda, mestre em processos industriais pelo IPT e coordenador técnico da MC-Bauchemie.

2 Argamassa com resina epoxídica
Utilizada para recuperar pequenas áreas. É um produto que, após sua mistura, ganha muita fluidez, e sua aplicação geralmente deve ser realizada em no máximo 30 minutos, pois seu processo de secagem é muito agressivo. Dependendo dos aditivos utilizados, as propriedades de estado fresco (período de trabalho) são alteradas, explica Holanda. “Teoricamente, quando se trata de produtos com base cimentícia, o retardo controlado dos fenômenos de hidratação promove maiores resistências mecânicas finais. Entretanto, seu uso é restrito, por requerer superfície seca do substrato para sua aplicação, uma vez que em superfícies úmidas os produtos podem não aderir ao substrato com eficiência”, completa.

3 Concreto modificado por látex
Tem características mecânicas semelhantes às do concreto convencional, mas deve ser empregado em áreas e aplicações diferentes, porque suas características térmicas não são propícias para uso em estruturas. No concreto fresco, o látex aumenta a trabalhabilidade, podendo ser incorporado ar se não forem utilizados antiespumantes. No concreto endurecido, a resistência à compressão é muito influenciada pelo teor e tipo de polímero utilizado. Na maioria das aplicações, a aderência a substratos e a impermeabilização são as necessidades mais comuns. Pode ser utilizado, por exemplo, para pavimento rodoviário e canais de drenagem.

4 Concreto com cimento de alta resistência inicial
Tem sido utilizado em casos em que se torna necessária a desenforma rápida dos elementos de concreto armado. “Esse cimento possui a característica de ganho de resistências iniciais mais elevadas”, enfatiza o químico. “As patologias estão mais relacionadas ao todo do concreto ou à argamassa do que propriamente ao tipo de cimento. Contudo, um aspecto que deve ser considerado, dependendo do tipo de obra, é o calor de hidratação que esse cimento proporciona. Sendo maior esse calor liberado pelo cimento, algumas estruturas podem ser comprometidas por fissuras e retração.”

5 Concreto aditivado com sílica ativa
Por ser muito fina, a sílica ativa pode preencher espaços muito pequenos na mistura fresca, conferindo um material mais denso e de baixa permeabilidade. “A adição de sílica ativa em concretos pode reduzir o consumo de cimento no traço e mitigar possíveis patologias, como a reação álcali-agregado”, diz Holanda.

Por Paulo Hebmüller