Veja como funciona a telegestão de iluminação pública com LED

O gerenciamento remoto da iluminação pública com base em luminárias de LED começa a ganhar corpo nas cidades brasileiras por meio principalmente de Parcerias Público Privadas (PPPs). A modernização das redes entrou de vez na agenda das prefeituras em janeiro de 2014, quando concessionárias repassaram aos municípios os ativos desse serviço, seguindo determinação da resolução normativa 414/2010 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A telegestão garante que o operador da rede saiba a exata localização de cada ponto de luz e receba quase instantaneamente informações de desempenho e de falhas, como, por exemplo, lâmpadas queimadas no sistema. Essa agilidade facilita a manutenção da rede, pois os problemas não dependem apenas de rondas. Além dos alertas em casos de anormalidades, podem ser programadas varreduras periódicas, que fornecem dados para análises mais amplas do funcionamento da rede. As informações individualizadas dos pontos de consumo também permitem maior controle sobre os gastos das prefeituras com energia. Hoje, para efeitos de cálculo de consumo, a conta de eletricidade considera que cada lâmpada fica ligada 11h52 por dia, exceto em casos excepcionais. Com a telegestão, o consumo acumulado do sistema é registrado com exatidão. Por outro lado, o operador pode controlar a intensidade de cada luminária de LED, reduzindo ainda mais o uso de eletricidade.

Capitais como São Paulo e Belo Horizonte lançaram editais de PPPs para a modernização, a otimização, a expansão, a operação, a manutenção e o controle remoto e em tempo real da infraestrutura de suas redes.

Fernando de Paiva Pieroni, diretor de parcerias públicoprivadas e concessões da SP Negócios, explica que o edital lançado pela prefeitura paulistana estabeleceu metas de intervenção e critérios de eficiência, delegando aos potenciais concessionários as soluções de tecnologia. Ao todo serão avaliados 17 critérios divididos em seis categorias: luminotécnica, manutenção, modernização e eficientização, expansão, cadastro e telegestão.

O projeto tem o objetivo implantar 620 mil pontos de luz com LED na cidade, todos integrados a um software de gerenciamento remoto – hoje, nove em cada dez luminárias em funcionamento no município são de vapor de sódio, menos eficientes, e a manutenção somente é feita após reclamações ou rondas. O valor do contrato é de R$ 7,3 bilhões, que serão consumidos nos 20 anos de concessão, e os investimentos previstos, que ocorrerão nos primeiros cinco anos, serão de R$ 2 bilhões. O parceiro privado arcará com os gastos e receberá uma contraprestação da prefeitura a partir de recursos da Contribuição para Custeio da Iluminação Pública (Cosip). Em menor escala, a Universidade de São Paulo implantou há dois anos um sistema de telegestão na Cidade Universitária, que tem 76 milhões de metros quadrados.

Um novo cabeamento elétrico subterrâneo, com material bimetálico, foi adotado para ampliar a capacidade da rede, que ganhou luminárias em LED. Os pontos de luz passaram de 3,2 mil para 7 mil, e houve a ampliação do número de postes de 2,8 mil para 5,5 mil. De acordo com a universidade, o mesmo projeto luminotécnico com lâmpadas de descarga consumiria 7.197 MWh de energia por ano, e, com a tecnologia LED, o consumo anual passou a 2.605 MWh, 63% a menos. Com a dimerização em 30% na média, o consumo poderia chegar a 1.518 MWh, 79% de economia.

Atualmente, o sistema na universidade está em fase de ajustes. O contrato com a fornecedora prevê um tempo de dez anos como garantia. Além disso, há um contrato de manutenção no prazo de cinco anos.

DANIEL BENEVENTI

As intervenções na USP foram feitas com base na norma técnica NBR 5.101:2012 – Iluminação pública – Procedimento. Saiba mais sobre o funcionamento da telegestão a partir do sistema implantado no campus da universidade paulista:

1. Iluminação
Para garantir que toda a área da rua e dos passeios tenha uma iluminação homogênea, é preciso avaliar a altura e a posição das luminárias nos postes, a potência das lâmpadas, as lentes que serão utilizadas, bem como a distância entre os postes. Na USP, cada luminária tem até quatro módulos de LED de 50 watts, e elas ficam de 5 m a 18 m de altura, voltadas para as ruas ou para as calçadas. Já a distância entre os postes é de, no máximo, 15 m.

2. Telegestão
Contando com um IP, o telegestor fica encaixado à luminária e funciona como uma antena que envia informações sobre ponto de luz ao software de gerenciamento e recebe ordens dadas remotamente pelo operador. Os equipamentos no projeto da USP e as luminárias onde eles estão acoplados foram desenvolvidos pelo fornecedor.

3. Transmissão
Demoras ou falhas de transmissão dos dados podem reduzir a eficiência da telegestão, por isso esse ponto merece atenção. Numa rede, um telegestor (nó) se comunica por rádio com outros no entorno, e um nó mestre se liga à rede por GPRS/3G ou conexão por cabos. Há ainda a opção de transmitir os dados por WiFi/WiMAX. Na Cidade Universitária, os telegestores se comunicam por rádio, e cada grupo de 500 equipamentos passa informações a um concentrador. Os gateways, após uma tentativa frustrada de comunicação por 3G, foram ligados por cabo UTP à rede da universidade e, até o fim do ano, usarão uma rede de fibra ótica, mais eficiente.

4. Software 
O software de gestão reúne informações como o endereço de cada luminária, o status do equipamento (aceso ou apagado), o status da fotocélula, a intensidade da luz, o consumo de energia no momento e o acumulado, a temperatura da luminária e o status da rede de comunicação. Pelo programa, é possível realizar varreduras por luminária ou de todo o sistema e controlar o funcionamento das lâmpadas em tempo real, além de consultar dados consolidados, que ficam em um banco de dados.

5. Dimerização
O software é capaz de controlar a intensidade da luz de cada luminária e criar cenas diferentes na rede. Essa capacidade é útil para reduzir os gastos com energia em pontos com baixa circulação, por exemplo. A USP iniciou um projeto para avaliar as potencialidades da dimerização.

Por Gustavo Coltri
APOIO TÉCNICO: Enea Neri, engenheiro da prefeitura da Cidade Universitária da USP