Saiba mais sobre o uso de geogrelha e geotêxteis no reforço de solos de maciços

Os geossintéticos são produtos industrializados com características e composições diversas. Eles se caracterizam pela presença de polímeros em sua fabricação e podem ser encontrados no mercado como tiras, mantas ou estruturas tridimensionais. Por outro lado, têm muitas funcionalidades, entre as quais se destacam a separação de solos, obras de drenagem, contenção de fluidos e gases, controle de erosões e reforço de pavimentos, além de reforços de solos de maciços e estabilizações de taludes de aterros e de cortes em terrenos naturais.

Por ter estrutura vazada, geogrelha tem boa ancoragem no solo e maior aceitação nas obras

A norma técnica ABNT NBR ISO 10.318:2013 – Geossintéticos – Termos e Definições reúne os termos relativos às funções, produtos e propriedades, bem como os símbolos aplicáveis a esses produtos. O texto brasileiro é idêntico à norma internacional ISO 10.318:2005 – Geosynthetics – Terms and definitions. E, de acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), há outras 12 normas que se referem ao tema, orientando, por exemplo, ensaios laboratoriais com os produtos.

No reforço de solo, os geossintéticos mais utilizados são as chamadas geogrelhas e, em menor escala, os geotêxteis tecidos, de acordo com o especialista Paulo José Brugger, sócio-diretor da Brugger Engenharia. “Ambas as soluções trabalham tracionadas. A geogrelha fica mais bem ancorada no solo por ter malha aberta, embora o geotêxtil tenha a mesma função.” Ele diz que, em aplicações com o objetivo de reforço, é importante que os produtos tenham grande resistência e baixa deformação.

Segundo informações fornecidas pela diretora da empresa Vertical Green do Brasil, Isabel Coelho, o geotêxtil é o geossintético mais tradicional em contenções de taludes, composto por diversos polímeros, como poliamida, polipropileno e poliéster. A geogrelha, por sua vez, pode ser composta por polietileno de alta densidade, poliéster, PVC, polipropileno e é muito mais resistente do que o geotêxtil, além de possuir menor deformação. Com aspecto vazado, ela pode ser associada a um geotêxtil ou geocomposto (produto constituído por mais de um tipo de geossintético) antierosivo.

Brugger conta que os produtos de poliéster aplicados no reforço de solos são os mais utilizados no País, mas ele também destaca as composições de PVA e aramida. De acordo com ele, o poliéster apresenta um custo mais baixo do que as outras duas opções. O PVA e a aramida têm maior resistência, contudo.

Aplicação
O uso dos geossintéticos nos maciços garante a redistribuição das tensões e deformações no solo e acrescenta resistência à tração, tornando possível, com menor volume de aterro compactado, o revestimento da encosta com muros ou taludes. Essa vantagem faz especial diferença em solos moles, incapazes de suportar faceamentos mais verticais sem a realização de intervenções.

Transportada em rolos, manta geotêxtil tecido tem boa permeabilidade

De acordo com Brugger, a praticidade de transporte e a fácil aplicação são características dos geossintéticos. De maneira geral, eles são transportados em rolos com largura variando de 3 m a 5 m e comprimento entre 100 m e 200 m, de acordo com o especialista. Além disso, a aplicação dos produtos muitas vezes pode ser realizada pelos próprios operários da empreiteira responsável pela obra.

A colocação das geogrelhas ou dos geotêxteis ocorre em camadas, dividindo o maciço em partes. Podem ser feitos aterros em camadas com altura variável – a cada 30 cm, 40 cm, 50 cm, geralmente em distância múltipla das espessuras adotadas na compactação do solo. Os produtos podem ser aplicados em grande parte dos solos, embora tenham algumas exceções em solos argilosos. “De modo geral, para ser uma solução competitiva, usamos o solo local ou o de uma região próxima. E hoje podemos utilizar até entulho de obra reciclado, diz Brugger.”

A altura e a resistência do muro na face do talude são dois aspectos que interferem no dimensionamento do sistema de reforço. “O projeto sempre parte da geometria (da encosta). É necessário verificar o que precisa ser feito nela, qual é a altura e o comprimento e qual é a sobrecarga em cima do muro.” O documento deve indicar também o tipo de material que será empregado na obra e a resistência do geossintético.

Existem algumas opções de revestimento para a face das encostas com solos reforçados. A solução mais tradicional é o chamado solo envelopado, em que o produto usado no reforço também envolve externamente o solo, servindo como face do talude. Como o geossintético fica exposto às intempéries, ele pode ter a durabilidade reduzida em relação a outros revestimentos. Uma opção muito adotada nas obras brasileiras é a utilização de grandes blocos de concreto intertravados e até o uso de vegetação rasteira. Esta última opção, aliás, é mais indicada para autoestradas ou vias fora das áreas urbanas, de acordo com o especialista da Brugger Engenharia.

O maciço com solo reforçado por meio dos geossintéticos praticamente não demanda manutenção e tem autonomia para durar décadas. Apenas inadequações de drenagem ou algumas interferências da vegetação do morro em questão podem, eventualmente, exigir reparos. Erros de execução, como falta de cuidado na compactação do solo ou erros de projeto também podem criar problemas prematuros para o maciço.

Fontes de informação
Além das normas técnicas, existem outras fontes de informações com relação aos produtos geossintéticos. No site oficial do braço brasileiro da Sociedade Internacional de Geossintéticos (tradução da sigla IGS – International Geosynthetics Society), há explicações sobre os produtos e os métodos de utilização. Uma publicação também indicada por fornecedores e especialistas é o “Manual Brasileiro de Geossintéticos”, que ganhou uma terceira edição no início do ano. O livro é uma iniciativa do Comitê Técnico de Geossintéticos da Associação Brasileira das Indústrias de Não Tecidos e Tecidos Técnicos (Abint).

Por Gustavo Coltri