Com inauguração em março, Teatro Santander será capaz de receber desde shows até desfiles

A cidade de São Paulo ganha neste mês um empreendimento que amplia sua capacidade de sediar eventos culturais e, em paralelo, exibe o trabalho de ponta realizado pela engenharia e pela arquitetura brasileira. O Teatro Santander, obra da WTorre Engenharia, foi construído com peças pré-moldadas, fachada com blocos de vidro translúcidos, isolamento acústico na estrutura e no acabamento, além de um inovador sistema de poltronas retráteis que permite a reconfiguração do auditório para abrigar diferentes tipos de eventos, como: espetáculos teatrais, desfiles, shows, congressos e eventos corporativos.

“Desde o início queríamos algo arrojado e versátil. Discutimos diversas soluções com os arquitetos até atingirmos o objetivo: a versatilidade, que é a principal inovação do projeto”, conta Caio Moreali, engenheiro da WTorre Engenharia responsável pela obra.

O teatro está localizado na Av. Presidente Juscelino Kubitschek, na Vila Olímpia, zona Sul da cidade. Ele integra o Complexo JK, que conta também com um shopping center e duas torres corporativas, na beira da Marginal Pinheiros. O teatro tem 8 mil m² de área construída, numa obra de R$ 100 milhões, com projeto arquitetônico de Edo Rocha e projeto de interiores do escritório norte-americano Eskew+Dumez+Ripple (EDR). O banco Santander, que já ocupa uma das torres no complexo, adquiriu o direito de dar nome ao teatro.

FICHA TÉCNICA
Empreendimento: Teatro Santander
Localização: Acesso pelo Complexo JK, na Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2.041, Vila Olímpia, São Paulo
Construtora: WTorre Engenharia
Projeto arquitetônico: Edo Rocha
Projeto de interiores: Eskew+Dumez+Ripple (EDR)
Investimento: R$ 100 milhões
Conclusão da obra: março de 2016
Área construída: 8.000 m²
Capacidade: 1.200 pessoas sentadas e 1.800 com poltronas retráteis

Nos quesitos inovação e versatilidade, o destaque vai para as poltronas da arquibancada, instaladas sobre um sistema retrátil automatizado, trazido da Espanha. O sistema, ainda pouco utilizado no Brasil, permite “esconder” esses níveis de assentos num nicho situado no lado oposto ao do palco, criando uma nova configuração local, com mais de 1.000 m² de área livre no mesmo patamar. Ao todo, o teatro comporta 1,2 mil pessoas sentadas. Sem as cadeiras, o número pode subir para até 1,8 mil.

Com o sistema retrátil, o Teatro Santander é capaz de abrigar eventos com layouts muito diferentes em um mesmo dia, pois o deslocamento das poltronas entre sua posição original e o nicho leva apenas dois minutos. “Durante o dia pode ocorrer um desfile, com as cadeiras retraídas, e à noite é possível ter uma apresentação teatral, como todas as poltronas disponíveis”, afirma o engenheiro.

O teatro tem palco de mais de 400 m², boca de cena com 14 m de altura, 56 varas cênicas motorizadas, três elevadores sociais, um elevador de carga e um elevador de orquestra. Além do teatro, o prédio é composto por três subsolos, onde estão alocadas todas as áreas técnicas, como camarins e cozinha. Acima do teatro, há um pavimento com cerca de 1.000 m², projetado para receber eventos diversos, como encontros corporativos, festas e exposições. A estrutura e o isolamento acústico permitem que haja eventos simultâneos no teatro e no piso superior.

Projeção da fachada com blocos de vidros e jogo de luzes
Situado na beira da Marginal Pinheiros, teatro tem isolamento acústico reforçado

Acústica
Além da versatilidade, outro ponto forte do projeto é o cuidado com a propagação do som. Quem passa pela Vila Olímpia é obrigado a conviver com o barulho do trânsito de carros e caminhões na Marginal Pinheiros, além dos helicópteros que pousam nas coberturas dos edifícios. Para evitar a percepção de ruídos no teatro, a obra foi feita com um envelope acústico: o fechamento do prédio, na parte de trás e no lado voltado para a Marginal, foi executado com paredes duplas de blocos de concreto, preenchidos com graute, além de lã de pet entre os blocos, como recheio.

Na parte interna, os tecidos das poltronas também possuem tratamento para minimizar oscilações na propagação do som quando o teatro estiver lotado ou com cadeiras vagas. Essa função acústica é exercida pelo conjunto entre a trama do tecido e a densidade da espuma, que permitem a absorção de som pelas poltronas, sem gerar reverberação.

A laje que divide o teatro e o pavimento superior também tem função de isolar o som. Sobre a laje estrutural, que conta com vigas protendidas de 28 m de comprimento, foi instalada uma camada de manta acústica de lã de pet e, por fim, uma nova laje, de 20 cm de espessura, chamada de flutuante. “Não existe interferência. É possível ter um show na parte superior, e o teatro funcionando normalmente. E fizemos toda a análise vibracional, para não passar som para a parte de baixo”, ressalta Moreali, engenheiro responsável pela obra.

Estruturas
Como os detalhes com a acústica do edifício e as áreas cênicas técnicas demandariam mais tempo para acabamento, a WTorre investiu na agilização da etapa de superestrutura. Assim, optou por uma estrutura mista, composta por partes pré-moldadas e outras moldadas in loco. O método permitiu uma redução de três meses na obra em comparação com uma estrutura totalmente montada in loco.

Laje de cerca de 1 mil m² no pavimento superior ao do teatro

“Em função da velocidade, essa era a melhor solução para a estrutura do prédio, embora fosse mais cara. Mas, numa visão global, o custo não foi tão alto, porque foi possível liberar a obra mais rapidamente e antecipar a execução de outras partes complexas”, explica Elson Aguilar, diretor de engenharia da construtora. Moreali acrescenta que teatros geralmente são construídos com concreto moldado in loco, devido à presença de diferentes layouts por pavimento. Mas, neste caso, a opção pelo pré-moldado se mostrou acertada.

Já as fundações foram moldadas in loco. Foi necessário escavar até o terceiro subsolo para unir a nova fundação à já existente do Complexo JK. Embora o Teatro Santander tenha sido construído a partir do zero, ele ocupa o terreno que abrigou anteriormente as instalações da Daslu. E, na parte de cima, a cobertura do prédio tem estrutura e telhas metálicas, e sobre as telhas, um telhado com área verde.

Fachada
Para a fachada do empreendimento, a construtora resolveu adotar outro sistema pouco convencional: blocos de vidro. “Existem alguns lugares do mundo onde essa tecnologia é mais comum, mas por aqui não há muitas obras. No começo havia outra solução, mas buscamos essa ideia com o arquiteto Edo Rocha, e a empresa adotou a sugestão”, explica Moreali. Mais de 57 mil blocos de vidro foram executados manualmente, bloco por bloco. Uma estrutura metálica garante o afastamento da fachada em relação à estrutura. Neste espaço, que varia de 30 cm a 50 cm, dependendo do lado, há luzes de LED para a iluminação da fachada.

Os blocos transparentes foram importados da República Tcheca, conforme explica Moreali. “Tivemos uma preocupação com a coloração. Havia várias amostras nacionais e internacionais, e elas tinham coloração esverdeada. Mas buscávamos algo transparente porque existe uma iluminação por trás. O bloco precisava ser limpo para chegar ao resultado que se buscava. Fizemos vários protótipos até escolher de fato”, recorda. Toda a execução foi acompanhada passo a passo por topografia, para assegurar o nivelamento. Uma moldura de inox nos cantos finaliza a fachada.

Hall de entrada do espaço multiúso, com acesso pelo Complexo JK, no bairro Vila Olímpia

Ainda na parte externa, há uma caixa de escadas revestida com o mesmo vidro presente em outras partes do Complexo JK, um vidro belga considerado supertransparente. “É um detalhe arquitetônico importante. A ideia era ter uma visão ampla da Marginal Pinheiros e também não descaracterizar a identidade do complexo”, ressalta Moreali.

Logística
Embora a empreitada tenha tecnologias inovadoras, a logística foi a parte mais desafiadora em toda a construção, segundo o engenheiro responsável pela obra. Conforme prevê a legislação municipal, o canteiro só podia receber materiais à noite. Além disso, o acesso só foi possível pela Rua Gomes de Carvalho, numa extensão da via que forma uma pequena rua sem saída, que acaba nos fundos do canteiro. “Tivemos uma concessão dessa rua e todas as cargas e descargas foram feitas por ela”, conta Moreali. A entrada de veículos pela Marginal não era possível por conta do tráfego intenso na via.

A construtora contou com apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para realizar as descargas, já que recebeu peças pré-moldadas de concreto de diversos tamanhos, além do sistema retrátil das poltronas, que chegou ao Brasil em sete contêineres diferentes. Por isso, a construtora planejou a chegada de apenas um contêiner por vez.

CORTE LATERAL

Exibe todos os pavimentos. O teatro tem pé-direito triplo, o que inclui térreo, 1º e 2º pavimentos. A sala multiúso ocupa o 3º andar

Por Romário Ferreira