Ciclovia da Avenida Paulista: obra de 2,7 km de extensão ajuda a consolidar política de mobilidade urbana que incentiva tráfego de bicicletas

Extensão: 2,7 km na Avenida Paulista e 0,9 km na Avenida Bernardino de Campos. Conexão com via para ciclistas nas ruas Itápolis, Consolação e Vergueiro
Serviços complementares:instalação de rede de fibra ótica sob o traçado de toda a ciclovia, retirada de postes e aterramento da rede elétrica e requalificação de calçadas e de passagens de nível na Avenida Bernardino de Campos
Duração da obra: janeiro a agosto de 2015
Custo da obra: R$ 12,2 milhões

O projeto de implementação de 400 km de vias para tráfego de bicicletas até 2016 na cidade de São Paulo está perto de ser concluído. Em dezembro, a capital paulista contava com 370,1 km de infraestrutura cicloviária permanente em operação – um grande salto para o município, cuja malha era de apenas 96,6 km até junho de 2014, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). De lá pra cá, a Prefeitura inaugurou 273,5 km de vias para ciclistas.

A mais emblemática delas é a ciclovia da Avenida Paulista, no coração de São Paulo. A obra foi executada entre janeiro e agosto de 2015, com implementação de 2,7 km de ciclovias nos canteiros centrais da Avenida Paulista e 0,9 km no da Avenida Bernardino de Campos. A construção também envolveu instalação de fibra ótica por baixo das ciclovias, dando suporte para equipamentos de monitoramento do trânsito, como radares, câmeras e sistema de controle de semáforos. O custo total do projeto foi de R$ 12,2 milhões.

Hoje circulam por ali, em média, 610 ciclistas no pico da manhã e 1.150 no pico da tarde, sem registros de acidentes até dezembro de 2015. “A obra foi simbólica e um marco na consolidação da política de infraestrutura cicloviária na cidade”, afirma Jilmar Tatto, secretário municipal de transportes.

Os primeiros estudos para esse trecho começaram em 2013. Uma das grandes discussões no período se referia ao local de implementação. Poderia ser na Avenida Paulista ou nas paralelas – Rua Cincinato Braga, Rua São Carlos do Pinhal e Alameda Santos. Para isso, a análise de tráfego da CET considerou o fluxo de pedestres, ônibus e demais veículos, além da disponibilidade de estacionamentos. Nesse ínterim, houve o entendimento de que a implementação de uma ciclovia nas paralelas reduziria muito o fluxo de veículos motorizados por ali, pois são ruas mais estreitas. Além disso também atrapalharia a conversão para os quarteirões de acesso à Avenida Paulista. Por fim, eliminaria muitas vagas de estacionamento nas laterais das pistas das vias.

Depois desta escolha, começaram as análises para definição do traçado da ciclovia. A CET optou pela ocupação do canteiro central – um espaço subutilizado – em vez das laterais da pista, onde haveria necessidade de eliminar uma faixa de rolamento ou estreitar a calçada, além de provocar interferências na conversão dos carros e motos. “Em uma via com tal volume de pedestres, não tem o menor sentido prejudicar essas pessoas. Outro critério foi manter o número de faixas de rolamento”, explica Susana Leite Nogueira, supervisora de planejamento, estudos e projetos cicloviários da CET.

Dessa forma, o projeto manteve as calçadas intactas. As faixas para carros permaneceram em mesmo número, mas tiveram reduzida a largura – que era de 3,5 m, em média, e perdeu entre 10 cm e 19 cm. Isso aconteceu porque o canteiro central foi ampliado para receber a ciclovia. A largura do canteiro, que variava entre 2,5 m e 3,2 m, foi ajustada para 4,0 m. E a ciclovia ganhou dimensões consideradas confortáveis pela CET, com largura média de 2,50 m, e tráfego bidirecional.

Alguns trechos da ciclovia têm largura menor para acomodar tanto ciclistas quanto pedestres que atravessam a via de uma calçada para outra. A circulação de pedestres é intensa na Avenida Paulista, especialmente nos horário de almoço, chegada e saída do trabalho. Algumas passagens de nível tinham largura de 1,20 m prevista no projeto inicial, de 2013, e foram ampliadas para 1,50 m, priorizando a acomodação de um grande volume de pedestres e, inclusive, cadeirantes.

O projeto também determinou a construção de algumas rampas nas pistas, que funcionam como lombadas para, propositadamente, reduzir a velocidade da bicicleta e aumentar a segurança de ciclistas e pedestres. Em parte das laterais da pista, há gradis para evitar a passagem de pedestres por trechos exclusivos para o tráfego de bicicletas. “Muitos dos gradis não são para segurança do ciclista, mas para direcionar o pedestre na travessia”, conta Susana.

Pista recebeu concreto já pigmentado em cor vermelha

O traçado da ciclovia exigiu realocação de alguns totens de semáforo, que ficam em colunas. No cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação – trecho de conversão e grande movimento – foram estabelecidos ciclos no tempo semafórico independentes para passagem de motorista, pedestre e ciclista.

O projeto teve ainda de lidar com as grelhas de ventilação da linha verde do metrô, que atravessa o subsolo de toda a Avenida Paulista. Para isso, a ciclovia foi nivelada de acordo com os dutos de circulação de ar. Em paralelo, as grelhas receberam um novo acabamento em aço galvanizado, com lixamento para ficar menos lisas, e aletas no sentido inverso do encaixe dos pneus.

Coordenação
Na aprovação do projeto completo, um dos grandes desafios institucionais foi a coordenação de diversos órgãos públicos. Além da CET, participaram do projeto: São Paulo Transportes (SPTrans), Metrô, Secretaria da Pessoa com Deficiência, Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Departamento de Iluminação Pública e as Subprefeituras Sé e Pinheiros.

Também precisaram ser acionados os órgãos de cuidados com o patrimônio, como: Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pois o prédio do Museu de Arte de São Paulo (Masp) tem área tombada no seu entorno; o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), porque o envoltório do Conjunto Nacional e de antigos casarões são, tombados em nível estadual; e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), que regulamenta esses processos de intervenção.

Os trabalhos começaram na região da Praça Oswaldo Cruz e seguiram no sentido da Rua da Consolação, de forma geral, com: remoção de terra; execução do eixo lateral; e execução da ciclovia, trecho a trecho. “Assim que finalizávamos a remoção de terra e das interferências em uma quadra, seguíamos para a seguinte, quadra por quadra, para não fazer movimentações desnecessárias”, conta Susana, da CET. Durante a obra, uma das faixas de rolamento de cada lado foi fechada.

A pista para ciclistas, de cor vermelha, foi construída com concreto pigmentado, uma prática que dispensa a aplicação de tinta ou outros revestimentos, agilizando a obra e diminuindo a necessidade de manutenção. Outra ciclovia paulistana com concreto pigmentado fica na Rua Eliseu de Almeida, no Butantã, na zona Oeste. Há algumas opções de material para essa diferenciação de cor, como a nata pigmentada sobre o concreto, executado na Ciclovia da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona Sul.

Nos trechos da ciclovia da Avenida Paulista em que há travessia de veículos motorizados, as faixas de rolagem em asfalto foram mantidas, sendo executada uma “fresagem da capa do asfalto” e uma sinalização vermelha em plástico a frio. “É diferente da tinta e do hot spray. O plástico é aplicado com rodo, que dá aderência e impregna no pavimento”, explica Susana. Para sinalização horizontal nos trechos em concreto, foi usada película elastoplástica. “É feita colagem e, com o aquecimento natural, ela dá aderência ao concreto”, completa a supervisora.

Na Avenida Bernardino de Campos, a obra teve uma intervenção maior, com requalificação da via e dos passeios, padronização das calçadas como na Avenida Paulista e instalação da fibra ótica. Também foi providenciada a retirada dos postes para aterramento da rede elétrica, etapa em que surgiram muitas complicações devido a ligações clandestinas e a necessidade de cortes temporários de energia para os moradores e comerciantes locais.

Além disso, o canteiro central é rico em área verde, onde estão expostas raízes de árvores de médio e grande porte. Para preservação das árvores, foram construídas guias mais altas para passagem dos ciclistas – uma solução técnica que está sendo aplicada também na ciclovia da Avenida Pacaembu, atualmente em obras.

CONEXÕES
Projeto prevê expansão das vias para ciclistas no entorno da Av. Paulista

Na transição entre os canteiros, ciclovia passa pelo asfalto. O trecho do canteiro central na foto é exclusivo para ciclistas
No dia da inauguração, avenida foi fechada para veículos motorizados. Prática está mantida aos domingos
Canteiro vazio antes da implementação da ciclovia. Local tinha uma faixa liberada para ciclistas só aos domingos
Passagem de nível com piso tátil para pedestres e pista com elevações para reduzir velocidade de ciclistas

Acesso à ciclovia por cima de túnel no canteiro central da Avenida Paulista, próximo à Rua da Consolação