Conheça a obra do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, que teve investimento de mais de R$ 260 milhões

RESUMO DA OBRA
Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro
Contratante: 
Governo do Estado de São Paulo
Local: 
São Paulo
Área construída: 
40 mil m²
Área de intervenção: 
90 mil m² (inclui parques e praças abertas ao público)
Início das obras: 
dezembro de 2013
Data de conclusão: 
dezembro de 2015

O Brasil ainda não se transformou na potência olímpica para a qual tanto investe. Há evolução em várias modalidades de esportes, mas o quadro de medalhas que acompanhamos nos Jogos Olímpicos ainda mostra o País em uma posição discreta no cenário mundial. Porém, nos esportes paralímpicos, o cenário é bem diferente. Os atletas brasileiros conquistam diversos pódios, figurando entre as grandes nações nesse tipo de competição. Uma condição que pode se reforçar ainda mais pela nova estrutura à disposição dos atletas paralímpicos.

O Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro teve suas obras concluídas em outubro de 2015 e pretende se colocar como a referência para o esporte paralímpico na América Latina. Construído em São Paulo, o empreendimento será usado para formação, treinamento, competições e intercâmbio de atletas e seleções de 15 modalidades esportivas. A estrutura também poderá ser utilizada para o desenvolvimento das ciências do esporte, contemplando áreas como medicina, fisioterapia, psicologia, fisiologia, biomecânica, nutrição e metodologia do treinamento.

O CT será gerido por um conselho tripartite, formado pelos governos federal e estadual e pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). O investimento nas obras é superior a R$ 260 milhões. Desse total, cerca de R$ 150 milhões foram despendidos pela administração federal, enquanto R$ 115 milhões foram aplicados pelo governo do estado de São Paulo.

Programa complexo
Projetado pelos arquitetos do escritório paulistano L+M Gets, o empreendimento de 60 mil m² construídos no Parque Estadual Fontes do Ipiranga, na zona Sul de São Paulo, divide-se em dois grandes blocos entremeados por áreas verdes. O primeiro, destinado ao treinamento de atletas, será composto por dois ginásios contendo oito quadras esportivas, arenas multiuso, pistas de atletismo, piscinas olímpica e semiolímpica, além de vestiários, sanitários e salas de diversas utilidades. O segundo é composto pelo Centro Residencial, com capacidade para 240 pessoas e que inclui dormitórios, refeitórios, salas de estar, TV e reuniões, lavanderias, área administrativa e de apoio. Há, ainda, dois andares de estacionamentos somando 300 vagas e uma praça de eventos.

O núcleo esportivo é organizado em cinco setores. O primeiro engloba a recepção principal, as garagens e as quadras de tênis em cadeira de rodas. O segundo é destinado ao treinamento de vôlei, basquete, rúgbi e futebol de 5 (praticado por cegos). O terceiro nível é composto pelo parque aquático. No setor 4, fica o ginásio para a prática de judô, esgrima, bocha, golbol, tênis de mesa e futebol de 7 (praticado por atletas com paralisia cerebral). Já no setor 5 ficará o centro de pesquisa e medicina do esporte, áreas de fitness e de ensino, além de uma pista de atletismo.

A implantação em diferentes patamares se deu principalmente pela necessidade de lidar com a acentuada declividade (aproximadamente 20 m) do terreno. O CT ocupa uma área de preservação de Mata Atlântica, daí a necessidade imperiosa de manter a vegetação e respeitar a topografia da região.

Para garantir fluidez na circulação vertical em um local muito sensível a questões de acessibilidade, os arquitetos recorreram a um edifício central, em formato cilíndrico e que, além de servir como recepção, interliga todos os níveis por rampas em espiral e também por elevadores panorâmicos.

Construído com estrutura metálica e concreto moldado in loco, o prédio faz clara referência às curvas do Museu Guggenheim, em Nova York. A arquiteta Silvana Tersi, gerente de contrato do L+M Gets, explica que, além do aspecto funcional, esse edifício tem também um papel simbólico: ao favorecer o livre tráfego dos usuários, estimula-se a interação entre as pessoas e a sensação de que o espaço pertence a todos.

Acessibilidade universal
No Centro Paralímpico, garantir acessibilidade a todos demandou que o projeto extrapolasse as exigências da legislação e das normas técnicas. A ABNT NBR 9.050: Acessibilidade a Edificações, Mobiliário, Espaços e Equipamentos Urbanos estabelece medidas para corredores e portas usadas por cadeirantes, por exemplo, mas não trata de acessibilidade para atletas, que possuem uma performance diferente no espaço. “A cadeira de rodas de um para-atleta de basquete tem medidas e funcionamento muito diferentes de um modelo comum. Além disso, os espaços deveriam garantir livre tráfego a pessoas com variadas características físicas e motoras”, conta Silvana Tersi.

Diante da inviabilidade de dimensionar cada dispositivo e espaço de acordo com a necessidade de cada tipo de usuário, a especificação de materiais e o desenvolvimento de acessórios e mobiliário buscaram soluções, como bancos e apoios, que pudessem prover acessibilidade para usuários com diferentes condições.

A ideia de dar flexibilidade do espaço se estendeu também às instalações esportivas, que, além de comportar eventos simultâneos, é capaz de abrigar público em quantidade variável. Entre a arena e as quadras, por exemplo, foi instalada uma parede divisória retrátil de 5,5 m de altura permitindo ampliar ou compartimentar o espaço de acordo com a necessidade. Nas instalações internas também foram especificadas arquibancadas retráteis, que ocupam menos espaço quando não estão em uso.

Em especial nas áreas de treinamento, buscou-se utilizar soluções já testadas em outras instalações olímpicas, caso do piso da pista de atletismo, que tem certificação classe 1 da Federação Internacional de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês). Outro exemplo é a piscina importada da Itália equipada com bulkhead (ponte rolante de 2 m de largura que pode dividir a piscina em duas) e controles de leds para definir performance e ajudar o treinamento.

Cercado de rampas, o complexo residencial construído dentro do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro é composto por dois blocos erguidos com estrutura pré-fabricada. Inspirado nos alojamentos esportivos ucranianos, chineses e sulcoreanos, o edifício tem apartamentos com diferentes metragens para abrigar desde um atleta individual até grupos de sete pessoas. O espaço incorpora áreas de convivência, lazer, refeições, lavanderias e áreas de apoio. Ao todo, os alojamentos são capazes de receber entre 280 e 300 pessoas.

Por estar localizado ao lado de um parque ecológico, o projeto contemplou uma série de medidas de caráter ecológico. Há, por exemplo, telhados e paredes verdes, bem como um sistema de reutilização da água da chuva para irrigação das áreas ajardinadas. Também foram incorporadas ações para recuperar uma parte do terreno que estava degradado entre o bloco de treinamento e bloco residencial. Para essa área, o projeto de paisagismo previu a criação de um jardim contemplativo e sensorial com a adição de novos exemplares de vegetação nativa. De acordo com a arquiteta Silvana Tersi, buscou-se, na medida do possível, aproveitar a luz e a ventilação naturais nas edificações. O edifício-recepção/circulação vertical, por exemplo, tem amplas superfícies envidraçadas.

Para controlar o ofuscamento e a incidência de sol, alguns dispositivos de sombreamento foram incorporados às fachadas. Um dos destaques nesse sentido é o uso de membrana compósita na face oeste do edifício das quadras. De cor laranja e com formas orgânicas, o elemento foi instalado sobre uma estrutura metálica especialmente projetada para recebê-lo. Além de funcionar como referência arquitetônica por suas formas fluídas, ajuda a atenuar a incidência solar e o ruído viário no entorno das quadras.

Tecnologias combinadas
Para Luiz Fortunato de Lima Bruzza Filho, gerente de contrato da OAS, o empreendimento é pioneiro pela quantidade de processos e métodos distintos que precisam ser tocados simultaneamente em função de cada atividade ou modalidade esportiva. O leque de serviços para atender a todos esses projetos inclui estruturas metálicas, pré-moldadas e moldadas in loco, armações com e sem protensão, lajes planas e nervuradas, cobertura com steel deck.

Para coordenar tantos projetos correndo em paralelo, a obra foi desmembrada em seis frentes, com controles diários, semanais e mensais para cada etapa de construção, por meio de levantamentos quantitativos, gráficos, registros aéreos fotográficos e, nos processos mais complexos, modelos em 3D. A última etapa do cronograma foi a conclusão do edifíciorecepção, que por sua localização estratégica, foi utilizado para entrada de saída de materiais da obra.

Colaborou: Juliana Nakamura

FICHA TÉCNICA
Projeto de arquitetura: L+M Gets Arquitetura e Construção; construção: OAS; consultoria em acessibilidade: Silvana Cambiaghi; estrutura metálica: Tchsteel engenharia (fachada): Alphafer (cobertura de ginásios); estrutura de concreto: Construtora Pires de Andrade e GDF Construtora; fundações: Geofix; automação e controle de acesso: Tekma Engenharia; paisagismo: EKF; piso intertravado: EcoBrasil; canais de drenagem: Ulma; piscinas: MyrthaPools; piso (pista atletismo): Mondo; membrana compósita (fachada) e membrana acústica (piscina): Serge Ferrari; divisória retrátil (entre arena e quadras):Hufcor; grama sintética: Limonta; revestimento acústico: OWA; esquadrias de alumínio:Metotécnica; tratamento de estrutura metálica: Onixvale Construtora.