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Crea aponta falhas técnicas em obras da Copa

Fiscalizações realizadas pelos Conselhos Regionais de Engenharia nas cidades-sede mostram patologias graves em obras viárias e estádios

Por Marina Pita
Edição 39 - Junho/2014
Divulgação: Crea-RS
Crea-RS realizou fiscalizações no Beira-Rio e também restaurantes, bares e hospitais

A realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil foi anunciada no meio técnico como uma oportunidade única de o País desenvolver tecnologias de ponta em construção pesada, incorporar procedimentos executivos alinhados a padrões internacionais e dar um salto inédito no desenvolvimento de sua precária infraestrutura urbana e logística. Mas erros tanto técnicos quanto de atendimento às normas do exercício profissional na realização dos empreendimentos frustraram as boas expectativas da engenharia nacional. Foi o que constataram ações de fiscalização realizadas pelos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (Creas) nas cidades-sede da Copa do Mundo de Futebol, coordenado por um grupo de trabalho no âmbito do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.

O Crea Amazonas realizou fiscalizações semestrais com caráter orientativo desde o início das obras. A partir de 2013, passou a realizar visitas trimestrais às obras vinculadas à Copa do Mundo de Futebol e com caráter punitivo. Neste período, a construção da Arena da Amazônia, já concluída, gerou 131 Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) e três autos de infração.

Já nas obras do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, ainda em andamento, foram produzidas 461 ARTs e 34 autos de infração. O Porto de Manaus, inconcluso, já motivou um auto de infração e o Centro de Treinamento de Coroado, outros três. Ao todo, o Crea Amazonas emitiu 41 autos de infração por falta de visto e registro das empresas no conselho, e por falta de ARTs, considerando as seis obras identificadas como da Copa. Agora, prepara um relatório completo das irregularidades encontradas relacionadas ao exercício profissional. Apenas as construções do Centro de Convenções e do Estádio Ismael Benigno-Colina, ambas em andamento, não receberam autos de infração. No total das obras, foram registrados 689 ARTs.

Divulgacao: Infraero
O Crea Amazonas emitiu 461 Anotações de Responsabilidades Técnicas e 34 autos de infração às obras do Aeroporto Eduardo Gomes

Para além dos problemas envolvendo o exercício profissional, em fevereiro deste ano uma equipe técnica do Ministério Público Federal do Amazonas (AM) realizou inspeção nas obras do aeroporto e constatou uma série de vícios de construção. O órgão listou alagamentos espalhados por toda a extensão do estacionamento externo superior, provocados por problemas no sistema de captação e drenagem das águas pluviais; infiltrações no estacionamento coberto decorrentes dos alagamentos; placas do forro dos saguões de embarque e desembarque totalmente desalinhadas, com risco de queda; e falhas no isolamento dos dutos de ar-condicionado, resultando em gotejamento.

Mas os problemas não são uma exclusividade do Amazonas. No caso do Ceará, há a possibilidade de rescisão do contrato da Infraero com a empresa contratada para realizar as obras de reforma e ampliação do Aeroporto Internacional Pinto Martins, de Fortaleza, capital do Estado e cidade-sede da Copa do Mundo de Futebol. A ação foi recomendada pelo Ministério Público Federal do Ceará (MPF-CE) em duas ocasiões. A obra tem 15,62% de conclusão e deveria ter sido entregue em março de 2014. O MPF-CE considera os atrasos "injustificáveis".

Mobilidade urbana
A pedido da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, a Comissão de Acompanhamento das Obras da Copa 2014 do Crea-MT realizou uma série de vistorias técnicas a 13 obras de mobilidade urbana relacionadas ao evento esportivo, em Cuiabá e Várzea Grande. "Como havia um pedido formal da Assembleia, pudemos apontar o que havia de não conformidade nas obras em execução", afirma André Shuring, engenheiro civil e conselheiro no Mato Grosso.

Os exemplos de problemas apresentados para embasar as críticas são relevantes. Nas obras de trincheiras (quatro foram visitadas: Jurumirim, Santa Rosa, Santa Isabel e Mário Andreazza) foram identificadas percolações de fluidos nas cortinas atirantadas laterais e em concreto armado. Ocorre que o processo construtivo desconsiderou a instalação de dispositivo de drenagem vertical ou sua interligação ao sistema de drenagem horizontal - uma negligência que compromete a durabilidade do concreto armado de forma a prejudicar a proteção da armadura sujeita à corrosão pela percolação de fluido.

Não bastasse isso, na trincheira Gyriaco Cárdia, foi identificada ausência de sistema de drenagem ou de calha coletora, o que propicia a presença de água na pista - uma das principais causas de acidentes viários e que coloca em risco a segurança dos usuários. Ainda nas trincheiras, os fiscais do Crea constataram que a superfície das cortinas atirantadas - notadamente irregulares e com saliências e protuberâncias - não foram devidamente uniformizadas por cobertura complementar de acabamento.

Recentemente entregues, a pavimentação das trincheiras já se mostra saturada, segundo o relatório. Também foram identificadas fissuras no concreto, o que significa risco de colapso da peça ou, no mínimo, a notória perda de suas características de integridade, segurança, durabilidade, impermeabilidade e demais requisitos mínimos de desempenho.

Na obra de restauração do Córrego Mané Pinto, observou-se que a substituição das placas de concreto se deu, em sua maioria, nos bordos superiores, e não na calha de fundo, o que seria imprescindível, na avaliação do Crea-MT. "A falta de uniformidade na substituição das placas com a utilização de partes antigas degradam a harmonia visual. Além disso, acarreta dificuldade no escoamento do efluente, uma vez que não há garantia de que este esteja fazendo uso da calha superior, tendo em vista que foram detectadas insurgências de afloramento de lençol freático, o que compromete a vida útil da obra", registrou o conselho no relatório. Ainda, os padrões de calçamento são muito inferiores ao estabelecido nos normativos municipais e o lançamento de um interceptor para desviar o sistema de esgotamento sanitário do efluente não foi realizado.

Ainda de acordo com os relatórios do Crea-MT, o Centro Oficial de Treinamento do Pari - obra de R$ 25,5 milhões planejada para se tornar o primeiro estádio da cidade de Barra do Pari - está em desconformidade com as normas de acessibilidade. As instalações de acesso da área externa para a interna não contam com definição de rotas acessíveis. Os elevadores projetados não atendem aos requisitos mínimos estabelecidos em projeto e carecem também de especificações detalhadas para pessoas com deficiência auditiva e visual. As escadas não contam com extensão de corrimão e nem de patamar mínimo de acesso. Os banheiros não permitem o acesso a pessoas com deficiência, uma vez que há degraus e portas de entrada estreitas. Os vestiários também descumprem as normas técnicas e não permitem seu uso por pessoa com mobilidade reduzida. As saídas de emergência não possuem áreas de resgate ou desenho universal adequado. Nas arquibancadas, não houve cumprimento do decreto 5.296/2004, para garantir espaço para esse público.


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