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Água de reúso

Conheça o projeto Aquapolo Ambiental, complexo que produz recursos hídricos para atividades industriais a partir de esgoto tratado. Empreendimento poderá evitar o consumo de água potável suficiente para abastecer cidade com até 300 mil habitantes

Por Carlos Carvalho
Edição 23 - Novembro/2012
 

Marcelo Scandaroli

Com o intuito de suprir a necessidade de consumo de água para fins industriais das empresas do Polo Petroquímico do Grande ABC, na região metropolitana de São Paulo, foi criada uma Estação Produtora de Água Industrial (Epai), a Aquapolo Ambiental, sediada na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) ABC, da Sabesp.

Considerado o maior projeto de água de reúso para fins industriais do Brasil e do Hemisfério Sul, o complexo tem capacidade para produzir 1.000 litros por segundo de água de reúso - recurso hídrico não potável produzido a partir do esgoto tratado. Cerca de 17,5% desse total já é hoje consumido pelas empresas do Polo Petroquímico, que, depois da instalação do Aquapolo em novembro de 2012, deixaram de consumir água potável para fins industriais. Resultado: cerca de 175 l/s de água potável, que estariam sendo destinados às empresas, estão disponíveis à população. O volume equivale ao abastecimento de uma cidade do porte de Campos do Jordão, com 53 mil habitantes.

De acordo com a diretora-presidente da Sabesp, Dilma Pena, "a região metropolitana de São Paulo é uma área de baixa disponibilidade hídrica, semelhante à do semiárido brasileiro, e o Aquapolo ajuda a não deixar faltar água tanto para a população, quanto para o desenvolvimento industrial dessa região". Segundo a Sabesp, com o Aquapolo funcionando em sua capacidade máxima, é possível reduzir o consumo de água potável pelas indústrias em um número capaz de atender a 300 mil pessoas.

Em média, a ETE ABC trata 1.800 l/s de esgoto, provenientes dos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá e de parte da capital paulista próxima à região. Desse total, até 1.000 l/s podem ser repassados para tratamento terciário do Aquapolo, que consiste em ultrafiltrar o material sólido presente no esgoto, biodegradar a matéria orgânica com os próprios micro-organismos presentes nos efluentes e, se necessário, reduzir a condutividade da água.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Processo de tratamento biológico, no qual os microorganismos degradam a matéria orgânica presente nos efluentes

 

De acordo com Antônio Emílio Meireles, diretor industrial da Braskem, principal cliente da Aquapolo, a empresa deixou de consumir água captada do Rio Tamanduateí - fonte de cerca de 70% do seu consumo antes do Aquapolo - e água potável da Sabesp - 30% do consumo. "Sem dúvida, um grande passo na redução do impacto ambiental", diz.

Além disso, Meireles explica que a água de reúso trouxe outras vantagens para a empresa. "A qualidade é muito superior em todos os aspectos à da água utilizada anteriormente. Isso proporciona a redução da manutenção para limpeza e a substituição de equipamentos de resfriamento, além da redução de custos com produtos químicos usados para tratamento da água para a geração de vapor", completa.

Fernando Gomes da Silva, diretor da Aquapolo Ambiental, diz que as empresas também foram favorecidas pelo preço da água de reúso, que é mais barata que a cobrada pelas concessionárias da região. "O preço final pode variar por conta da infraestrutura necessária para se fornecer a água para cada empresa, mas gira em torno de R$ 4 a R$ 5/m³. Ou seja, é mais barata que a água fornecida por qualquer concessionária, seja a de Santo André, São Caetano do Sul ou São Paulo. A taxa de redução varia de 30% a 50%", diz.

INFRAESTRUTURA DO COMPLEXO
CONHEÇA OS EQUIPAMENTOS DO AQUAPOLO AMBIENTAL :

Estação elevatória de baixa carga responsável por bombear os efluentes do tratamento secundário da Sabesp para o Aquapolo.
Sistema de filtragem por discos que impede a passagem de resíduos sólidos superiores a 400 mícrons.
Tanque biológico e de ultrafiltração com oito conjuntos de membranas de polissulfona.
Sistema de osmose reversa responsável por baixar a condutividade (salinidade) da água.
Quatro tanques reservatórios cobertos que totalizam 70 mil m³, dos quais metade é destinada para armazenar a água que passa pelo processo de osmose e a outra metade para a água que passa apenas pela ultrafiltração.
Estação elevatória de alta carga com três bombas responsáveis por enviar até 1.000 l/s ao longo dos 17 km da adutora.
17 km de adutora de aço carbono de 900 mm.

 

Gestão
A Aquapolo Ambiental é uma empresa de propósito específico que tem como acionistas a Foz do Brasil, empresa de soluções ambientais da Odebrecht, com 51% das ações, e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, com 49% das ações.

O investimento total para a construção da Estação Produtora de Água Industrial foi de R$ 364 milhões, dos quais 90% (R$ 327,6 milhões) são provenientes de um financiamento junto à Caixa Econômica Federal. Os outros 10%, R$ 36,4 milhões, foram de responsabilidade dos sócios na proporção das ações.

Segundo o diretor do Aquapolo, "esse financiamento foi viabilizado a partir do contrato assinado com a Braskem - principal cliente, com cerca de 85% de consumo do que se produz no Aquapolo. A empresa se compromete a consumir até 650 mil l/s de água de reúso pelo período de 41 anos", explica.

Atualmente, além das quatro plantas da Braskem, outras empresas também já têm contratos assinados com a Aquapolo para a compra da água de reúso produzida na estação: duas plantas da White Martins, duas plantas da Oxiteno, a Cabot e a Oxicap.

A intenção agora é fazer com que o Aquapolo chegue à sua capacidade total de produção: 1.000 l/s. "O investimento que foi feito está preparado para fornecer mais do que o Polo Petroquímico vai consumir. Então temos, potencialmente, a possibilidade de vender água para outras indústrias ao longo da adutora construída. O volume do Aquapolo é 13 vezes maior do que o que a Sabesp fornecia de água de reúso", explica.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Sistema de ultrafiltragem com membranas submersas, capazes de separar partículas de até 0,05 mícrons, é pioneiro no Brasil. Abaixo, água de reúso já produzida, pronta para ser vendida para indústrias do Polo Petroquímico do Grande ABC

Construção do complexo
A construção da Estação Produtora de Água Industrial ficou a cargo da Odebrecht Infraestrutura, que utilizou uma área de 15 mil m² do terreno da ETE ABC, de propriedade da Sabesp. "Era uma área não utilizada e passou a gerar renda para a Sabesp por um contrato de locação. Foi feita uma escritura de direito de uso por 41 anos, segundo a qual a Aquapolo paga o aluguel e os impostos da área que ela ocupa", diz Gomes.

A empresa também foi responsável pela construção da adutora encarregada de transportar a água do Aquapolo para o Polo Petroquímico de Capuava, instalada ao longo de 17 km pela Avenida dos Estados, entre os municípios de Santo André, São Caetano do Sul e Mauá.

 

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