Conheça como funciona o revestimento superficial de taludes

Os lentos movimentos da vegetação, dilatações térmicas, erosões eólicas, umidade e ações sísmicas são algumas das causas de degradação de maciços, cujas consequências incluem deslizamentos e rupturas que colocam em risco obras de infraestrutura e vidas em áreas lindeiras. O sistema de revestimento superficial, baseado no uso de malhas metálicas, cabos de aço e ancoragens, é uma das soluções que podem ser adotadas para garantir a consolidação da face superficial de taludes e a contenção de desprendimentos de rochas de 1 m³ a 1,5 m³.

O sistema é composto por uma malha de aço galvanizada com abertura em losangos ou hexágonos, tecida em conjunto com cabos de aço, aliada a chumbadores, placas de ancoragem e porcas. De acordo com especialistas, ele pode ser aplicado em taludes em solo para inclinações de até 65º e em taludes em rochas com inclinação vertical. E não deve ser confundido com o revestimento simples, em que a colocação de telas sem ancoragem tem apenas uma função de proteção contra a queda de blocos.

As condições de projeto para as obras de estabilização de encostas são descritas pela norma técnica NBR 11.682:2009, porém não há uma norma brasileira balizando a execução do revestimento superficial, também chamado de cortical. Por essa razão, documentos internacionais são adotados como parâmetros por fornecedores do País. O engenheiro Matheus Garcia, responsável técnico para a América Latina na Maccaferri, diz que a norma europeia UNI 11.211 trata da execução do sistema, e a UNI 11.437 se refere aos ensaios sobre as malhas adotadas.

O revestimento cortical pode ser utilizado de forma isolada ou, segundo o engenheiro geotécnico Felipe Gobbi, da Geobrugg AG, como faceamento de taludes em solo ou rocha grampeados. “Ele pode ser combinado também com contenções ativas, como contrafortes atirantados, por exemplo, mas devem ser compatibilizadas as deformações entre sistemas ativos e passivos, principalmente em solos. Existem inúmeras obras em taludes rochosos com contrafortes estabilizando grandes superfícies de ruptura e com o sistema de malha e chumbadores fazendo a estabilização superficial do talude”, diz. A colocação do revestimento superficial somente deve ser feita após uma análise de estabilidade da encosta por um geólogo. O dimensionamento do sistema, por sua vez, deve levar em conta a rigidez do revestimento e os esforços que serão transmitidos às ancoragens. Já a manutenção do revestimento cortical é praticamente dispensável, mas a vistoria de grampos, placas, porcas e da tela é importante para a verificação de pontos de corrosão. Garcia, da Maccaferri, recomenda que uma inspeção seja feita a cada cinco anos.

Veja, a seguir, como é a instalação de um reforço cortical:

1. Perfuração
O primeiro passo da instalação do sistema é a limpeza da encosta, com retirada de blocos soltos que estão apenas apoiados no talude – normalmente, esse trabalho é realizado por operários suspensos por meio de rapel. Feito isso, uma linha de ancoragem deve ser feita na parte superior do talude: perfuratrizes realizam furos de 50 mm ou 75 mm de diâmetro e profundidade superior à espessura de instabilidade da encosta, segundo Matheus Garcia, da Maccaferri. “Depois, eles posicionam chumbadores (barras de aço de 32 mm) e os fixam por meio da aplicação de nata de cimento ou resina.”

2. Passagem da malha
A tela de aço, que pode ter de 20 m a 30 m de comprimento dependendo do modelo adotado, deve ser posicionada sobre os chumbadores. Para prendê-las, placas de ancoragem devem ser encaixadas nas barras de aço e fixadas aos chumbadores por meio de porcas. Em seguida, a malha deve ser desenrolada. É importante frisar que, no processo de revestimento, muitas vezes é necessário unir várias telas para cobrir toda a área da encosta com risco de queda de rochas. Para isso, as mantas devem ser sobrepostas verticalmente e ligadas por grampos – a área de contato entre as malhas é de cerca de 30 cm. Lateralmente, a união não exige a sobreposição dos elementos.

3. Ancoragens
Depois de conectar os rolos, é necessário fazer a perfuração da rocha para a colocação das demais placas de ancoragem. De acordo com Garcia, são perfurados de 20 m a 30 m de talude por dia. Os espaçamentos entre as placas devem ser definidos no dimensionamento e vão de 1,5 m a 3,5 m, de acordo com as condições geotécnicas do talude e do produto adotado. Podem existir variações de distância entre as ancoragens quando o projeto prevê seções no talude em razão de diferentes necessidades de contenção. A placas podem ser dispostas em configuração diamante ou quadrada, respeitando a densidade de ancoragem determinada em projeto.

4. Ancoragem de pé
No pé do talude, deve ser criada mais uma linha de ancoragem com chumbadores, e um cabo de aço deve ser passado por eles. A malha deve ser passada por trás desse cabo e enrolada sobre si. Depois, basta prender a ponta da tela por meio de grampos. Esse mesmo acabamento pode ser realizado no topo da encosta.

Por Gustavo Coltri

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